Você é médico ou dentista e ainda não decidiu se vale mais a pena trabalhar como autônomo (CPF) ou abrir uma empresa (CNPJ)? Em 2026, essa decisão ficou ainda mais importante — e mais complexa. As mudanças no Imposto de Renda, os novos valores do INSS e as regras do Simples Nacional alteraram a conta. Neste artigo, fazemos o comparativo completo com um exemplo prático de quem fatura R$ 30.000 por mês.
As duas opções em resumo
Opção A — Médico Autônomo (Pessoa Física)
Você emite recibos usando o CPF, paga o carnê-leão mensalmente sobre os rendimentos recebidos de pacientes particulares, e contribui ao INSS como contribuinte individual (alíquota de 20% sobre o rendimento, limitado ao teto).
Opção B — Médico PJ (Pessoa Jurídica)
Você abre uma empresa, emite nota fiscal pelo CNPJ, paga os impostos da empresa (via Simples Nacional, Lucro Presumido ou Lucro Real), e se remunera com pró-labore + distribuição de lucros.
Exemplo prático: faturamento de R$ 30.000/mês
Vamos comparar as duas opções para um médico ou dentista com receita mensal de R$ 30.000. Consideramos serviços prestados diretamente (sem vínculo empregatício).
OPÇÃO A — Autônomo (Pessoa Física / Carnê-Leão)
Imposto de Renda — Carnê-Leão 2026:
A nova tabela progressiva de 2026 prevê isenção até R$ 5.000/mês e aplica alíquotas progressivas acima disso. Com redutor, a alíquota efetiva para R$ 30.000/mês fica próxima de 22% a 24%.
- IR estimado (carnê-leão): aprox. R$ 6.000 a R$ 7.000/mês
INSS — Contribuinte Individual:
O autônomo recolhe 20% sobre o rendimento, limitado ao teto de R$ 8.475,55 em 2026.
- INSS máximo mensal: R$ 1.695,11/mês (teto)
| Encargo | Valor mensal estimado |
|---|---|
| Imposto de Renda (carnê-leão) | R$ 6.500,00 |
| INSS (contribuinte individual, teto) | R$ 1.695,11 |
| Total de tributos | R$ 8.195,11 |
| Líquido no bolso | R$ 21.804,89 |
| Carga tributária efetiva | ~27,3% |
OPÇÃO B — Médico PJ no Simples Nacional (Anexo III ou V)
Médicos e dentistas podem se enquadrar no Simples Nacional. O CNAE da atividade define se a empresa entra no Anexo III (alíquotas menores, a partir de 6%) ou Anexo V (alíquotas maiores). A aplicação do Fator R pode migrar do Anexo V para o III quando o pró-labore representa pelo menos 28% do faturamento.
Cenário: Anexo III com Fator R aplicado (pró-labore = R$ 8.500/mês)
- Alíquota Simples Nacional (1ª faixa, até R$ 180k/ano): 6%
- DAS mensal: R$ 30.000 × 8,6% = R$ 2.580/mês
- INSS do sócio sobre pró-labore (11% × R$ 8.500): R$ 935,00/mês
- IR sobre pró-labore (até R$ 5.000 isento, sobre R$ 3.500 → ~7,5%): ~R$ 262,00/mês
- Dividendos distribuídos: R$ 30.000 − R$ 8.500 (pró-labore) − R$ 2.580 (DAS) − despesas = aprox. R$ 16.000 a R$ 18.000 isentos (abaixo do limite de R$ 50k/mês)
| Encargo | Valor mensal estimado |
|---|---|
| DAS Simples Nacional | R$ 2.580 |
| INSS sócio (pró-labore) | R$ 935,00 |
| IR sobre pró-labore | R$ 262,00 |
| IR sobre dividendos (abaixo de R$50k) | R$ 0,00 |
| Total de tributos | R$ 3.777,00 |
| Carga tributária efetiva | ~12,59% |
O comparativo final
| Critério | Autônomo (PF) | Médico PJ (Simples) |
|---|---|---|
| Carga tributária (R$30k/mês) | ~27% | ~12,59% |
| Economia mensal aproximada | — | R$ 4.000 a R$ 5.000 |
| Complexidade operacional | Baixa | Média |
| Custo do contador | Baixo | Médio |
| Proteção previdenciária máxima | Sim (20% sobre teto) | Sim (pró-labore no teto) |
| Emissão de nota fiscal | Por CPF | Por CNPJ |
| Possibilidade de dividendos isentos | Não | Sim (até R$50k/mês) |
Quando ainda pode valer ser autônomo?
A PJ não é para todo mundo. O formato autônomo ainda pode fazer sentido se:
- Seu faturamento mensal é abaixo de R$ 10.000 — a burocracia da PJ não compensa
- Você tem vínculo empregatício como principal fonte de renda e os recibos são complementares
- Você está começando e quer testar o mercado antes de formalizar uma empresa
- A atividade tem restrições para PJ em determinados convênios ou hospitais
Cuidados importantes em 2026
- ⚠️ Dividendos acima de R$ 50 mil/mês agora têm IR de 10% — quem distribui muito pode ter a vantagem da PJ reduzida
- ⚠️ Fator R precisa ser monitorado mensalmente — se o pró-labore cair abaixo de 28% do faturamento, a alíquota pode dobrar
- ⚠️ Simples Nacional tem limite de faturamento — até R$ 4,8 milhões/ano (R$ 400k/mês); acima disso, é Lucro Presumido
- ⚠️ Pejotização irregular é um risco — planos de saúde e hospitais podem exigir comprovação de prestação de serviço autônoma genuína
Conclusão
Para um médico ou dentista faturando R$ 30.000/mês, a diferença entre trabalhar como autônomo e abrir uma PJ no Simples Nacional pode ser de R$ 4.000 a R$ 5.000 por mês — mais de R$ 48.000 por ano. A conta é clara, mas a decisão depende do seu contexto específico: vínculos de trabalho, convênios, volume de clientes, perfil de gastos.
Não tome essa decisão sem simular os números com um contador de confiança.
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